O colunista cearense Fábio Campos reedita uma velha e consagrada perspectiva do jornalismo brasileiro e teoriza, para professores grevistas e trabalhadores em geral, que a solução dos conflitos é bem mais simples do que parece.
Noite de uma segunda-feira de fins de maio (ano 2011 da Era Cristã). No UHF 48, TV OPOVO, o jornalista Fabio Campos recebe o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, Acrísio Sena.
Em meio à temática tradicional nucleada nas agruras administrativas da senhora prefeita e no sempre precoce debate sucessório para as eleições municipais, uma nuance de caráter jornalístico sobressaiu (meninada sem aula tá mais perto da vida da gente comum que estratégias de alianças partidárias e afins).
E foi nesse campo, da galerinha órfã de polinômios e inequações, e bruscamente apartadas das orações coordenadas, dos adjuntos adverbiais, das oxítonas e proparoxítonas, por força do movimento grevista dos tios e tias, que o respeitado articulista do jornal O POVO disparou algumas já consagradas fórmulas de enfocar, no jornalismo brasileiro, um fenômeno sociológico, a saber:
- Acerca da invasão da Câmara Municipal pelos professores grevistas: A concentração, o foco, o privilégio, a absolutização do factual, do episódico, quando este significa transgressão ou desacato ao status quo legal (já na sua coluna no dia anterior dedicara uma única nota evidenciando tão somente a indesejada incursão ). Nada de mais, é um enfoque jornalístico.
- A qualificação do movimento de uma categoria profissional em busca de melhores condições de vida e trabalho como um “desrespeito aos estudantes e suas famílias”. Tudo bem. É uma opinião.
Por partes, primeiro ponto:
O problema é que essa postura à la Paulo Francis, Jabour e revista Veja, bem ao gosto do que quer ouvir uma certa classe média, é empobrecedora. Colocar os holofotes sobre um passo em falso (do ponto de vista do Direito) de um movimento social e obscurecer, por em segundo plano, as infinitas nuances e facetas da problemática que envolve o tema, é o que menos se espera de um jornalista conceituado e gabaritado que, diga-se de passagem, recentemente conquistou um espaço no caderno Política do jornal O POVO, similar (na diagramação e modelo, pelo menos) ao de um ícone como Elio Gaspari.
Sobre o fato da invasão, nos contentaríamos com manchetes e notícias. Do articulista queríamos algo mais e não a fórmula repetida de obscurecimento do todo pela superfície do episódio.
Nunca é demais lembrar que, para o bem e para o mal, transgressão e desacato à ordem estabelecida vêm do primeiro homem e têm, gostem ou não sisudos jornalistas de todos os tempos, movido a História.
Poderíamos citar uma bíblia de exemplos. Desde a inauguração do mundo liberal pela Revolução Francesa, com seus emblemáticos episódios de afronta e desrespeito ao estabelecido (como a invasão à ‘sala do jogo da pela’), passando por 1817 e 1824 no Nordeste (desafiando o Império), “pretos insolentes” capitaneados por um tal João Cândido (que ousavam desacatar a autoridade da Marinha brasileira na Baía da Guanabara)… enfim, certos ou errados (não é essa a discussão aqui) os episódios em si não devem servir de manto que acoberte a imensidão do que representam ou podem representar em suas épocas e no futuro.
“Quem pensam que são esses tais abolicionistas, que cometem crimes contra a ordem, incitam a baderna e financiam fugas de negros, que são legalmente de laboriosos fazendeiros?”. “Por que não têm paciência, articulam-se dentro da legalidade, e deixam amadurecer” (por, quem sabe, cinquenta anos ou mais) “essas suas reivindicações ditas libertárias?”, deve ter escrito um Fábio Campos de fins do século XIX.
Quanto ao segundo aspecto frisado pelo colunista (o do “desrespeito a alunos e famílias”), é de um reducionismo que dispensa comentários. Gastaríamos laudas mil pra demostrar que um movimento social é bem mais que isso, mas façamos de conta que foi só mais um deslize típico do uso de uma lente rançosa, bem “themistocliana”.
Num requinte de argumentação (pasmem, não minto!), o jornalista chegou a ilustrar seu posicionamento invocando familiares seus (tias, me parece) que foram professoras do ensino público e “nunca haviam deixado seus alunos sem aula”(sic!).
Ora meu caro Fábio. Milhões de professores (e médicos, garis, motoristas, etc) nunca fizeram greve. Outros tantos milhões, mundo afora, já fizeram. E isso não significa absolutamente nada! Não explica, não justifica, não esclarece, não resolve nada!
Parabéns para suas honradas familiares pelo feito, mas, e daí?
Como num passe de mágica, subtrai-se, com essa pérola de argumentação, aos cientistas sociais e políticos (e aos jornalistas!), dezenas, centenas de possibilidades de enfoques, de objetos de estudo, de percepção de um fenômeno histórico e sociológico cujas raízes estão no conflito de interesses entre classes sociais através dos tempos.
As tias do Senhor Fábio Campos, “que nunca deixaram seus alunos sem aula”, talvez sejam, seguindo a linha do jornalista, a chave pra entendermos todo o complexo problema da educação no Brasil… ou, por que não arriscarmos, das relações de trabalho mundiais!
Num próximo nível, quem sabe não podemos encontrar senhoras palestinas que nunca protestaram contra Israel, velhinhos muçulmanos que nunca se indignaram com o Ocidente, índios das Américas que nunca se importaram com invasores e…bingo! Tá tudo resolvido.
“Por que não pensamos nisso antes?”, indagarão desorientados historiadores e sociólogos dos últimos dois séculos.
“Agora sim, temos o fim da história!”, suspira um aliviado Fukuyama.