Não pensamos em uma educação que despeje na sociedade uma massa de serviçais, de mal formados, de cidadãos de segundo escalão, de subempregados, de gente do “beco da poeira” a serviço dos engomados do Iguatemi.
Insanidade seria discordar do jornalista em “A miséria da greve”.
O mais radical dos sindicalistas, o mais esquerdista dos militantes de PSOL, de PSTU’s e agrupamentos do gênero terá dificuldades de divergir desse encadeamento lógico de ideias sobre as consequências nefastas da greve elencadas no artigo: parte de ‘filhos de trabalhadores pobres’, sensibiliza pela ausência do suprimento alimentar fornecido pela merenda escolar, discorre sobre os problemas familiares e a exposição à rua, até chegar ao empecilho para a formação em si, fechando com o sonho da “profissionalização, da universidade…”, etc.
Ninguém descompassaria de tal raciocínio, e tal modo de enxergar o movimento grevista cabe como uma luva em variadas conjunturas.
Mas aí é que chegamos à parte complicada, da qual o jornalista insiste, pela simplificação, em “fugir”: o contexto histórico mais global, para além do período mais imediato, que tem em seu cerne uma demanda secular, uma dívida histórica com nós mesmos, que é a necessária (e certamente também consensual) revolução na Educação no Brasil.
É esse o prisma que (também) precisamos enxergar, e quem tá dentro do caldeirão, quem cai em desesperança após ver seus esforços darem em nada ano após ano, quem queima pestana e faz malabarismos turno após turno, quem, enfim, TÁ NA SALA DE AULA, enxerga com muito mais propriedade (e sentimento) que jornalistas em seus templos refrigerados nos confortáveis Civics e gabinetes.
À despeito de eventuais incongruências de sindicalistas do bonde do “quanto pior melhor”, estamos, há décadas, oferecendo pra imensa maioria do nosso povo uma educação de quinta categoria (e não falamos só de salário).
Não queremos resolver só a fome de hoje. Nem pensamos em uma educação que despeje uma massa de serviçais, de mal formados, de cidadãos de segundo escalão, de subempregados, de gente do “beco da poeira” a serviço dos engomados do Iguatemi. Pensamos mais além.
Em tempos de visibilidade positivada do país no cenário internacional, de ascensão de segmentos outrora marginalizados para o mercado, em tempos, também, de grandes espetáculos midiáticos no mundo esportivo que se avizinham, precisamos sim, inadiável e inapelavelmente daquela revolução.
Redenção na Educação continua sendo uma deslavada ‘conversa pra boi dormir’, uma promessa eterna de uma já desavergonhada sociedade.
A nós professores, que padecemos dessa dimensão mais aguda e mais histórica da problemática educacional, certamente custa ter a paciência reivindicada pelo articulista.


























